Acende o candeeiro, quero te olhar penetrando bem fundo, sem lágrimas e sem fluido.

Quero o gozo na batida ora suave, ora intensamente dolorida e repleta de prazer.

Sinto o cheiro inflamável do querosene queimando o pavio.

Sinto o nosso cheiro exalando suor e os nossos inflamáveis fluidos.

Não sei se o calor é do fogo ou dos nosso corpos costurados. Meus braços costuram seu pescoço, minhas pernas costuram seu quadril. Dou um nó bem apertado para ter certeza de que não vou sair.

Suas mãos costuram meus cabelos num movimento constante.

Encapo o seu corpo por completo. Dito o ritmo do nosso fazer. Escolho suas páginas manchadas com o meu suor e minha saliva e as coloco, mais uma vez, contra o meu corpo. Amasso, mordo e cheiro cada uma para encontrar você em mim.

Olho ao redor ofegante e vejo nossos corpos flamejando na parede branca do quarto. Bailamos exaustivamente a nossa dança.

Ao fim, o seu sopro nos apaga. Deito-me banhada de suor e da luz da lua.

Sei que você não enxerga mais meu gozo. Agora escuto as cigarras.

Palavra prostituída é a não dita.

Maldita seja a prostituída!

Mal-dita a que causa confusão no silêncio bem dito.

Silêncio que cala até o canto de Iara. Som de denúncia silenciado no sem fim da mata, nas profundezas do rio.

Silêncio mata!

Palavra é gozo. Enlaçada em Mil e uma Noites, na alcova de Sherazade.

Palavra gemida, sussurrada, penetrada e tocada para procriar vida.

A ausência da palavra é a inexistência da matéria. Torna-se desconhecida o que sempre foi presença.

Em que deserto a palavra é eco? O vento murmura um futuro incerto, sob o calor, derrete. No inverno, rompe-se em minúsculos cristais.

Palavra tem som.

Palavra amordaçada repele a alma.

Palavra silêncio é morte.

Eu te pedi, ainda em soluços, para você voltar.

Entendo que o mundo sabe do omi abrindo as portas do país para a exploração sexual das mulheres.

Esse omi não curte o que a gente curte, ou até curtiria, “but” nem sempre se encontra a chave do armário, “tá okey?!”

Eu te pedi, em prantos, volta! Aí faz frio, não chove e o café é solúvel!

Lembra do calor? Da praia do Pina aos domingos ou às vezes às segundas?! Não havia tempo, havia o nosso tempo.

Enquanto eu me lembrava, você só repetia insolúvel: “Aí, os juros e a inflação estão altos!”

Veja só, “flor”, quanta incerteza econômica no nosso amor!

O omi aumentou os juros e você diminui o amor. Ele inflacionou, o PIB estagnou e nosso amor brutalizou!

30/04/19

La llave cierra a fuerza la cerradura.

¿Dónde han puesto la cerradura?

¿En la puerta? ¿En la boca? ¿En el alma?

¿Y la llave? ¿En cuál lugar ella se queda?

Solo ella abre y cierra.

Solo ella decide cuando hablar y cuando silenciar.

Pero, cuando las cerraduras deciden abrir, no hay llave que las cierre.

La llave se rompe y en el hueco cerrado se unen el cuerpo y el alma.

 

Os primeiros 14 minutos do dia 16 de julho, daquele ano, já surgiram amenos, não ventava, apenas marcava no grande relógio 21º. O metrô já estava fechado há mais de uma hora e a sensação de partida era visível em seus olhos. Existiu a tentativa de se adiar o que ambas já sabiam, mas não se engana o tempo, é infalível.
 O tempo reina soberano e o passado se faz presente tão mais doloroso do que antes. Naquele momento, era impossível planejar o futuro, o fim era certo. Talvez se tivessem decidido descer na próxima estação não perderiam o tempo, ele mais uma vez. Não precisariam caminhar até encontrar um lugar para comer exatamente perto da estação. E o tempo estava ali, monumental, preso no grande relógio. Implacável, ele expunha certeiro as horas, a temperatura e o dia.
 Impossível ignorá-lo, estático, mas luminoso. Grandioso, piscava freneticamente sem se preocupar se disputava com as demais luzes dos carros e das resistentes lanchonetes, que desobedeciam o horário padrão.
 A noite estava convidativa para ser sentida em um só trago. Por fim, decidiram que a mesa mais próxima da pequena movimentação da noite seria mais adequada. Na verdade, o local era indiferente, pois nada mudaria o desencontro.
 Havia um odor desagradável combinado com a sensação desconfortável do momento. Mais importante seria encontrar de onde vinha aquele cheiro, talvez assim o tempo seria enganado e não perceberia os olhares já distantes, cada qual em seu território.Era o ralo. Havia um ralo embaixo da mesa, tão passivo e inerte, mas emanava fetidamente o que estava oculto.
 Não era apenas a despedida, era o tempo enclausurado naquele relógio, era o odor e o ruído das portas dos outros estabelecimentos se fechando.
 Elas resistiam a tudo. Gastavam o tempo, ou o tempo as gastava?
 Lembra daquele dia que nos conhecemos? Chegou o sanduíche… Sim, só não entendo porquê os anos distantes foram tão longos e agora que estamos perto,  as horas correm de nós… O suco agora, espera.
 Na volta, a cigana já estava sentada prometendo encontrar nas cartas, em minutos, o futuro de cada uma. O futuro tinha regras simples, apenas embaralhar, cortar, embaralhar e a carta que cair mostrará o porvir. Tão simples que foi prontamente aceito pela pequena quantia solicitada.
 Imagina, não conseguiam lidar com o presente! O passado foi uma lacuna repleta de não acontecimentos e nenhuma realização dos desejos, que simplório é saber o futuro.
 A cigana levava consigo um grande girassol preso aos cabelos negros, alguns fios desbotados caíam pelos seus ombros. Seus olhos comportavam o mundo. A ancestralidade também era visível nos veios que rasgavam sua face.
 São as estradas percorridas, ela disse, estão marcadas também nos meus pés, andei por civilizações antigas e de línguas desconhecidas. Cantava no meu idioma e jogava cartas e assim, cada vez mais distante, buscava o meu encontro. Ao fim retornei, em partes.
 A carta escolhida misticamente foi Solitude. Os olhos se encontraram e a cigana os observava, a leitura não ocorreu pela carta, ela compreendeu os códigos contanto o parpadear. O movimento frenético dos quatro olhos estavam mergulhados e de tão asfixiados transbordaram em distanciamento.
 A cigana se levanta. O silêncio das duas se rompe ao escutarem a cigana cantar O amor perdido.
 24/08/2018

Ao abaixar da cortina

O corpo caminha lentamente na rotina, porque já sabe que ela é certa. Só se alimenta porque algo vazio grita dolorosamente. Seus planos já eram bem programados e a certeza de cumpri-los já lhe causava a alegria da vitória.
 Sabia de tudo detalhadamente, já havia repassado mentalmente diversas vezes, provavelmente até para ser promessa. Daquelas que se leva à parte do corpo desejoso por cura, no seu caso seria ele inteiro. Difícil promessa, apesar da pouca altura, um corpo não é uma mão ou um pé, por isso corpo.
  Parecia que seu cérebro era um ser isolado, bem descontente com a responsabilidade de um oráculo e a certeza de que não estaria no controle, apesar das diversas tentativas de recompensa e ameaça. Como algo tão simples, banal até, causaria um golpe no tempo cronometrado e repassado imageticamente como se já efetivado?
  O acordo foi selado e pactuado com sangue às 05h30.
  A cortina ainda estava abaixada.
  Bem programado, o corpo se levanta e feito boiada pastando já sabia a saída da cerca rumo à vereda determinada.
  De rotina bicho entende, a dos gatos, por exemplo, é feita em silêncio, do banho à caça. Entre eles, há dor, em silêncio ela também é sentida. Dor de gato não é feito de gente, é tão silenciosa que quando se escuta já é o fim.
  O vazio gritava internamente em mais um dia do corpo. Levantou a cortina e já sabia que antes de abaixá-la novamente sua dívida lhe visitaria diversas vezes.
  Olhou para o chão e percebeu a inevitável certeza: seus pés pisavam pelos, cabelos e poeira acumulados e arrastados por semanas. Não sabia ao certo quantas semanas, por vezes deixava tudo escuro, sendo mais fácil pisar limpo.
  Saiu. De hoje não passaria, precisava apenas de algumas horas e estaria novamente na normalidade dos dias roubados.
  Voltou com o vazio ruidoso. Olhou mais uma vez para o chão familiar e viu que suas partes estavam nos mesmos lugares.
  Abaixou a cortina.
  Dormiu.
14/08/2018